Reminiscências


Entre o que tive, o que não tive e o que escolhi não ter ter, hoje já não vejo qualquer diferença. São apenas memórias de um passado que já não posso tocar.

Primeiros Passos I

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Há momentos da noite em que a escuridão é mais real fechando-se num lento cerrar até ao momento em que ficamos sós connosco mesmo. Nessa altura perdidos no labirinto que a nossa própria mente se cerra inventa-se um estranho paradoxo de submissão e liberdade por vezes alimentado por rotinas inconscientes que não se devem de todo compreender.

Era uma noite negra e tempestuosa e Jorge caminhava descalço entre o cascalho molhado das rochas. Mais uma vez tinha decidido ir ali naquela tardia hora porque o sonho que o atormentava há noites seguidas novamente não o deixava dormir. - E para isto o melhor será mesmo levantares-te meu velho cão, ergueste da merda destes lençóis e um passeio pela praia pode ser que te mate os fantasmas – tinha então corrido a pequena ruela que o levava aquela pequena praia e mal sentiu a areia a entrar tirou seus os sapatos castanhos, as meias pretas rotas num dedo, as calças de ganga gastas com um buraco da moda no joelho direito, a camisa branca rota no cotovelo e por fim os boxers azuis com o símbolo do super homem que a sua ex lhe tinha oferecido e escondeu a sua roupa cuidadosamente dobrada e encharcada por debaixo de um pequeno penedo que se esgueirava para à frente. Sim, Jorge agora caminhava nu pela praia enquanto choviam pesadas gotas negras… e tempestuosas… e para ele isto já não era muito menos que normal dado o seu hábito ao mesmo já quase diário.

Passados alguns minutos chegou por fim onde queria, ao lugar que a voz do sonho ordenava que visitasse todos os dias, sentava-se então ele numa pequena gruta escarpada nas rochas e passados alguns segundos, minutos ou por vezes horas naquele limbo chegava então uma outra voz, esta chamemos-lhe a voz da razão… Uma voz de razão que por vezes surgia bem alto e escapava-se entre os seus lábios, uma voz de razão que por vezes se fazia ouvir por gritos, berros que se perdiam no isolamento do seu pequeno limbo, dizia ela

- MAS QUE CARALHO FAÇO EU AQUI, OUTRA VEZ ESTA MERDA!! OUTRA VEZ ESTA MERDA! ESTAREI LOUCO!!! FODASSE ESTOU LOUCO!!! –

Regressava então Jorge de passo apressado até ao pequeno penedo que se esgueirava para à frente, por vezes cortando os seus pés por descuido. Vestia-se à pressa e corria em passos largos de volta para casa onde se limpava com uma qualquer toalha e saltava para a cama adormecendo imediatamente envolto nas roupas ainda húmidas e um cobertor que já cheirava ligeiramente a maresia contrariando o calor da agitação de mais um estranho passeio na praia.

Definição da ironia em torno de si mesma

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Tenho as palavras dela manchadas nos meus olhos, hoje, quase a admiro. A minha doce construção, minha porque em ingénua vaidade sei que lhe dei mais do que ela compreende, mas também sei o que lhe tirei. Até que o verniz do tabuleiro estalou e o jogo parou de fazer sentido, ai, jamais voltei a mexer as peças, jamais voltei a enunciar regras do jogo ou a polir histórias de encantar, dolosas aventuras, dolorosas aventuras. Hoje já não lhe traço o destino com a arrogância louca do passado, hoje já mal lhe falo.


No entanto, olho-a nua e vejo para além do tempo que passou, das mudanças de gestos, de expressões, de voz. Passou tempo a mais e do tanto que foi dito haveria outro tanto a dizer, mas para que? Alimentámos o ócio de outras paisagens, simulamos paixão de um amor impossível que sempre seria tão simples. Perco as horas que falei com ela, tanto quanto me perdia no tempo em que isso ainda era possível. E gastamo-nos, como qualquer vela esse fogo de paixão imbecil também tinha as suas horas contadas. Findo esse pavio o que fica afinal?

Não é difícil a resposta, ficam as promessas, ficam só as promessas. Essas, ficam e vão ficar por mais tempo do que seria sensato a qualquer ser humano. Ficam guardadas porque essas criaram raízes no subconsciente, cresceram e enraizaram-se e como ervas daninhas alastram-se quando não são cuidadas. É esse o poder de uma ideia, repetida ao longo de anos por vezes secamente por outras vezes apaixonadamente, é esse o poder de uma promessa que sempre foi feita.
Quando a coragem fizer sentido, hei-de dar-te outro mundo, tu, que és o ultimo reduto da sanidade que em mim habita e o âmago do que há tanto me consome… tu que és outra coisa qualquer. Tu, que és uma outra qualquer parte de mim.

/palavras ao vento

 
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Por vezes escrevo, assino com o meu outro nome e deixo esse papel por ai. É algo inglório, no entanto não deixo de alimentar a ilusão que essas palavras podem encontrar alguém que as precise de ler ou que simplesmente façam sentido para essa pessoa. Essas cosas que escrevo são palavras que provavelmente não diria a ninguém, são palavras de uma melhor pessoa que gosto de manter em segredo, são palavras de fé e de algumas frases feitas imperfeitas. Parece-me impossível que essas cartas para ninguém cheguem a ajudar alguém, no entanto gosto de acreditar na ideia que chegarão à pessoa certa.

Histórias /II

 

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/dissolução

O mundo corria normalmente, afinal não tinha terminado momentos antes. Um estranho rapaz outrora azul, queria salva-la heroicamente. Infelizmente pouco podia fazer contra a pesada lei dos homens. Também ele a tinha sentido pesar sobre si, também ele dissipava algumas inseguranças sobre algo que estava decidido, a imutabilidade do destino já não o fazia tremer como dantes, estranhamente sempre se viu mergulhado no mais perfeito caos e ele a dada altura aprendeu uma estranha verdade, uma simples verdade, a verdade que era ele o senhor do seu destino, que a acção da sua mão sobre uma centelha poderia mudar por um segundo qualquer essa sensação de agonia que só olhar para o futuro pode dar.

Histórias /I

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/movimentos

Nesse instante ela sentiu a sua pele gelar, o seu mundo deparava-se agora com um destino que ela pensara que não era o dela, mas o seu vestido preto destoava claramente das cinzas desbotadas que a rodeavam. O olhar dela, com os seus olhos grandes, prendia-se agora num constante movimento de como quem faz inúmeras perguntas na sua cabeça e logo fica embaraçada com as suas próprias respostas. Mas era inevitável que as perguntas surgissem naquele momento, era fatal que as lágrimas corressem pelo seu rosto belo, deixando um sulco preto caótico a marcar a sua face. A impotência fazia as suas mãos tremer e o tempo parecia ter parado naquela mesmo momento.

Um momento de dor prolongado ao infinito…

/Pensamentos #2

Writing is like shooting in all directions and hope it will hit someone with inspiration